Os quatro Caminhos de Santiago
Há caminhos que fazemos com os pés.
E há outros que, sem darmos conta, começam a fazer-se dentro de nós.
O Caminho Central Português de Santiago chegou até mim assim. Primeiro como um desafio, depois como uma experiência e, finalmente, como uma parte daquilo que sou.
Nas minhas peregrinações houve dias de sol e de cansaço, quilómetros que pareciam não acabar, pés magoados, joelhos que obrigaram a parar e etapas que tiveram de ser adiadas. Houve planos que não se cumpriram e outros que foram refeitos pelo próprio Caminho.
Mas houve sobretudo pessoas.
Peregrinos que caminharam ao meu lado durante algumas horas ou vários dias. Pessoas vindas de lugares diferentes, com histórias diferentes, mas unidas pela mesma estrada. Partilhámos palavras, silêncio, refeições, um copo de cerveja e, algumas vezes, uma amizade que ficou para além do Caminho.
Guardo nomes, rostos e pequenos gestos. O companheiro que caminhou comigo, o peregrino que dividiu a mesa, quem ofereceu um simples "pinchinho" a quem passava, quem enviou uma mensagem às cinco e meia da manhã para dar força.
É curioso: partimos convencidos de que vamos chegar a Santiago. E chegamos.
Mas, pelo caminho, descobrimos que Santiago era apenas uma direção.
O verdadeiro Caminho estava nos encontros, nas dificuldades, nas dúvidas, na capacidade de continuar quando o corpo dizia para parar e na descoberta de que, muitas vezes, precisamos dos outros para chegar mais longe.
Levei comigo para Santiago pessoas que estavam longe. Amigos, família, pessoas que já partiram e outras que continuam a caminhar comigo. Levei pedidos, esperanças e memórias.
E quando finalmente entrei em Santiago, a satisfação não era apenas a de ter chegado.
Era a certeza de que alguma coisa tinha mudado.
Quatro peregrinações ensinaram-me que o Caminho não termina na praça do Obradoiro. O Caminho continua depois da chegada, nas memórias que trazemos, nas pessoas que encontramos e naquilo que passamos a olhar de maneira diferente.
Porque há caminhos que terminam num destino.
E há caminhos que, depois de terminados, continuam dentro de nós.